Com o sabor da estação

Minhas memórias de verão têm cheiro doce de melancia. Lembro bem das tardes quentes das férias de janeiro, quando sentava na escada da casa de minha avó, os pés descalços, o corpo inclinado pra frente, um pedaço grande de melancia no espaço entre os joelhos, as mãos meladas e os pingos de suco atraindo as formigas no chão. Não sei se hoje alguém lembra de uma estação do ano pelo perfume ou pelo gosto de uma fruta, mas sei que é possível encontrar melancias nos supermercados e nos restaurantes já em agosto. Porque melancias não precisam mais esperar o verão para serem colhidas.

Os alimentos viajam de um lado a outro e contam com as novas tecnologias do campo e com a melhoria genética para poderem estar presentes o ano todo nas gôndolas dos supermercados. As feiras e mercados, antes abastecidos por produtos frescos e locais, foram preteridos às facilidades dos super e hipermercados que oferecem alimentos de todos os cantos do mundo, durante todos os meses do ano. Nos afastamos da natureza, trocamos os quintais de casa pelas janelas e varandas dos apartamentos e quase não temos mais tempo para andar pelas ruas, olhando para cima, admirando um pé carregado de goiaba ou um ipê em flor. Com tudo isso, a sazonalidade perdeu a importância. Nosso cardápio não depende mais das safras e entressafras. Na hora das compras não nos guiamos mais pela oferta do campo e sim pelos nossos desejos.

"Por causa dos transportes, hoje encontramos uma grande diversidade de produtos o ano inteiro. Mas estamos começando a questionar: no que isso implica? Implica num custo ambiental enorme, pois o "passeio" que o produto faz antes de chegar ao nosso prato é muito grande", explica o Engenheiro Agrônomo Paulo Sérgio Tagliari. Mas as implicações não param no meio ambiente. Paulo, que é coordenador do Projeto de Agroecologia da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) adverte: a saúde também é prejudicada. Para suprir a falta de um produto na entressafra os alimentos enfrentam longas viagens dentro de caminhões, muitas vezes expostos ao sol e ao calor. E para agüentar os percalços do caminho e ainda chegar intactos na hora do encontro com o consumidor, recebem uma carga pesada de produtos químicos. "Ao tentar mudar um pouco os hábitos alimentares e levar em conta a sazonalidade o consumidor vai ganhar em saúde e em economia" afirma Paulo.

  No ponto

Porque na safra, o período natural da colheita, os alimentos são mais frescos e saborosos, mais saudáveis e mais baratos. Estão "no ponto". Fora desse período precisam de uma ajuda extra de fertilizantes e adubos químicos ou, então, precisam vir de outro lugar, onde é tempo de safra. Quem compra alimentos orgânicos já sabe que a disponibilidade dos produtos varia muito de mês a mês. "Para ser orgânico, um produto tem que respeitar a sazonalidade e o meio ambiente. Um orgânico que vem de outro país, ou de muito longe, pode não ter agrotóxicos, mas está desrespeitando o ambiente por causa das longas distâncias percorridas", lembra Paulo.

  Quando falta um produto, precisamos tentar substituir por outro. Essa exigência da troca constante de alimentos imposta pelo respeito à sazonalidade traz uma alternância saudável de nutrientes para o organismo. E também para o paladar. Ainda mais porque moramos no Brasil, onde a variedade de frutas, verduras e legumes é sempre grande, não importa se inverno ou verão. Ninguém precisa comer tomate o ano inteiro para se abastecer de licopeno, nem papaia todos os dias para regular o intestino. Não é tempo de batata inglesa? Vá de batata-doce, de inhame, cará ou mandioca.

  A consistência ideal

E como saber em que época dá o que? Existem muitas tabelas de safra de alimentos disponíveis na Internet e consultá-las pode ser o primeiro passo para voltar a associar frutas e legumes às diferentes estações do ano. Mas como essa é uma sabedoria que se aprende na prática, é bom ouvir o conselho de Paulo Tagliari: "apesar do supermercado oferecer praticidades, o consumidor precisa reservar um tempo para ir à feira, ao mercado conhecer novos produtos, falar com os feirantes e produtores". Desse jeito, observando quais as frutas predominam nas bancas e percebendo que os legumes oferecidos hoje não são os mesmos do mês passado, vamos nos reaproximar dos ciclos da agricultura e aprender o que comer em cada período do ano.

  Também precisamos reaprender a escolher as frutas e verduras na hora das compras. Com a oferta cada vez maior de produtos embalados e prontos para o consumo não sabemos mais reconhecer a consistência ideal de uma abobrinha e o ponto de um abacaxi maduro. A alface, a rúcula e o agrião já vêm lavados, acompanhados de cenoura ralada e rabanete fatiado. Basta levar à mesa. Batata, mandioca, chuchu e abóbora, descascados e em cubos, saem do pacote direto para a panela de sopa. Melão, melancia e mamão picados, sem casca e sem sementes, vêm na dose certa para o café da manhã. O resultado de tanta facilidade foi a perda da sensibilidade na hora de selecionar o que levar para casa. Para recuperar essa capacidade, comece a pedir ajuda para o atendente do supermercado ou, se possível, para o dono da banca na feira. Pergunte dicas e segredos que, pouco a pouco, farão com que você se familiarize com as características de cada alimento.

  Águas que nutrem

E preste sempre atenção naquilo que o seu corpo pede. Assim como a maioria de nós precisa trocar o guarda-roupa de acordo com as estações do ano, também precisamos trocar o cardápio. E a natureza sabe das coisas: no período em que um alimento está sendo oferecido em abundância, nosso corpo também precisa dele. Para a medicina tradicional chinesa devemos escolher os alimentos de acordo com as necessidades do nosso organismo – e as necessidades mudam junto com as estações. No livro Comer com Sabedoria, a nutricionista especialista em dietética chinesa Ana Beatriz Pinheiro mostra como adaptar o cardápio a cada estação para equilibrar as energias e nutrir o corpo de forma correta.

  Com a chegada do verão e do calor a temperatura do corpo sobe, o ritmo cardíaco aumenta, transpiramos mais e sentimos muita sede. Nosso corpo precisa se hidratar e repor os líquidos perdidos e a natureza, prontamente, nos oferece alimentos refrescantes e ricos em água. Verão é tempo de melão, melancia, abacaxi, laranja, limão, coco verde, banana maça e nanica, figo, goiaba, manga, maracujá, pêssego, uva itália e niágara, ameixa, jaca, fruta do conde. Legumes e verduras como pepino, quiabo, abóbora de verão e abobrinha, jiló, pimentão verde, vermelho e amarelo, vagem, tomate, milho verde, salsão, alho nacional, cebola e cebolinha, moyashi, repolho também são da estação. E a lista continua: siriguela, caju, ingá, jenipapo…

  E como estamos no verão, além de escolher bem os alimentos da estação é preciso prestar atenção na hora de guardá-los dentro de casa. Frutas e verduras mal armazenadas sofrem com o calor e podem amadurecer e estragar antes do tempo. A consultora pessoal e especialista em organização doméstica Heloísa Sundfeld vai logo avisando: "o melhor lugar para guardar as verduras e os legumes é a geladeira, principalmente no verão". Eles devem ser retirados das embalagens que vem da feira ou do supermercado e colocados em saquinhos plásticos transparentes ou leitosos, nunca coloridos. "Esse cuidado é necessário porque as embalagens normalmente estão empoeiradas, podem estar contaminadas e acabar contaminando os outros produtos da geladeira", adverte Heloísa, que é sócia fundadora da empresa de consultoria doméstica Help Personal Assistant.

  Para evitar que as frutas amadureçam muito rápido devemos reservar o lugar mais fresco e arejado da copa ou da cozinha. Já as frutas mais perecíveis devem ir direto para a geladeira. "No momento da compra evite escolher as muito maduras e procure comprar umas no ponto de consumo e outras mais verdes. Assim elas vão amadurecendo lentamente, em tempos diferentes, o que evita que estraguem" diz Heloísa. Além dos conselhos dos especialistas, preparamos uma lista com simples informações que podem ajudá-lo nas primeiras compras como um novo consumidor que respeita os ciclos naturais da terra.

Matéria publicada na revista Vida Simples, Edição 73.

Elisa Corrêa é jornalista e colaboradora da revista Vida Simples. Mestre em Comunicação pela Universidade de Florença, estuda a aplicação da "filosofia slow" ao jornalismo. correa.elisa@gmail.com

 

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