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A comida como potência evangelizadora

pict0009.jpgNeste estudo de cunho antropológico pretendemos problematizar os aspectos que fundamentam a doação de comida efetuada aos "moradores de rua" e/ou pessoas em situação de vulnerabilidade social provenientes de bairros periféricos de Pelotas, Rio Grande do Sul.

O trabalho caritativo é realizado pela Comunidade Fonte Nova: um grupo de oração vinculado à Igreja Católica. As primeiras atuações caritativas remontam há sete anos, quando o grupo iniciou a distribuição de comida aos "pobres", ao lado da histórica igreja pelotense, a Catedral São Francisco de Paula. Nesse ambiente urbano e público é que os beneficiários alimentavam-se, sentados em grupos no meio-fio da calçada. Após uma série de reclamações advindas de vizinhos – importunados com a sujeira e com a "poluição" ali deixadas pelos comensais – o grupo Fonte Nova mudou-se para uma casa, situada na Rua Dom Pedro II, dando ali continuidade a suas atividades, mas agora em um ambiente considerado apropriado, em espaço privado. Essas refeições, tanto no modelo anterior como no atual, acontecem todas as quartas-feiras, ao cair da tarde.

A metodologia da pesquisa deu-se no envolvimento direto com os grupos – tanto doadores quanto beneficiários -, com os quais realizamos a observação participante no intuito de desvendar as práticas e percepções que os interlocutores constroem entre si, tendo a comida como portal de entrada.

pict0007.jpgA casa é grande e suntuosa. Como complemento domiciliar, um muro seguido de um portão de entrada: é por aqui que os moradores da periferia de Pelotas, desempregados, catadores de material reciclável, homens, mulheres, crianças, idosos, famílias inteiras aguardam em fila pela refeição distribuída no local todas as quartas-feiras, a partir das dezoito horas. O cenário interno onde se dá a comensalidade é muito tranquilo, sereno, bem arborizado, cercado por parreiras e um muro divisor frontal e lateral. Um total de cinco mesas grandes, de madeira, pintadas na cor verde e dispostas por todo o terreno. No fundo, a mesa principal, com três panelas grandes contendo arroz, feijão e macarrão, além de algumas bacias com pães, saladas e uma jarra com suco ou água com gelo. Tudo é minuciosamente preparado pelos membros do grupo em uma cozinha própria, adaptada em uma garagem localizada ao fundo do terreno. Tudo pronto, as panelas são levadas ao pátio e expostas em uma única e grande mesa, como um buffet.

Na entrada, um senhor grisalho, Seu João, membro do Fonte Nova, fornece uma ficha numerada para cada beneficiário, juntamente com os pratos e os talheres. Sugerimos aqui a relevância simbólica desse processo de passagem da rua para um ambiente interno, a casa, como uma dinâmica pela qual abandona-se, temporariamente, o universo das hierarquias implícitas, não-sabidas, e mergulha-se no ambiente interno, domiciliar, no qual ordens, códigos e normas imperam e regem as relações sociais (DaMatta, 1997). Para alguns beneficiários que vivem na rua, um novo universo se apresenta: pratos, talheres, mesas, copos, posturas são elementos que compõem, ainda que temporariamente, a nova ordem.

pict0095.jpgAo referirmo-nos aos novos códigos de relações, dedicamo-nos muito mais às diferenças que o próprio ato de comer engendra naqueles que habitam as ruas, uma vez que este universo pressupõe uma alimentação desprovida, na maioria das vezes, do uso de utensílios usualmente empregados nas refeições diárias de cidadãos domiciliados. Soma-se a isso o fato de que, no período em que a comida era distribuída nos arredores da Catedral São Francisco de Paula, os utensílios alimentares eram caixas de leite improvisadas, cortadas ao meio, juntamente com talheres de plástico descartáveis. A percepção de um interlocutor pode elucidar melhor o potencial dessa diferença: "Comer em prato, com talher, é mais digno, é dignidade". Junto a isso, Marcos é quem dá suporte discursivo à existência de dois lados representados pelos processos elaborados em decorrência da transição da rua para a casa: assentando-se em suas experiências individuais, ele diz que hoje está "do outro lado", lugar onde se sente fortalecido, limpo. Quando um número considerável de beneficiários adentra este ambiente interno, um membro do grupo religioso dá início ao ritual de agradecimento divino e benção da comida, seguido da oração cristã do Pai Nosso.

pict0004.jpgEm estudo sobre a construção da corporalidade entre habitantes de rua em São Paulo, Simone Frangella, imersa em ambientes de doação de sopa realizada por entidades religiosas, constata que a pregação religiosa é uma ferramenta de performance que tem o poder de sacralizar a doação alimentar, fazendo da sopa um alimento divino. Nesse processo performático, os usuários, estudados pela autora, participam enquanto ouvintes da "palavra" e são convidados a orar em conjunto (Frangella, 2004).

De forma semelhante, na comunidade Fonte Nova o sagrado é invocado e um pedido, seguido de um agradecimento, é realizado. Trata-se do pedido de benção à comida: "Que Deus abençoe essa comida e nos dê força e saúde" (Judite, Fonte Nova).  Vemos aí um processo de sacralização do alimento, no qual, no ato da oração, na comunicação com Deus, propriedades positivas desejadas por todos são transferidas. Tais propriedades configuram-se, através da doação da comida, em dádiva, pois colocam-se a serviço e "em prol do laço social" (Godbout, 1998: 5), assumindo potencialidades que ultrapassam a força e a sustentação física. Nesse espaço, a comida é transformada pelos atores em um veículo de comunicação ou, melhor dizendo, de mediação entre sagrado e profano, tal como ocorre nos cultos afro-brasileiros, em que a comida ofertada aos orixás assume papel de mediadora "por excelência, das relações entre o mundo dos homens e o sobrenatural" (Corrêa, 2005: 71).

Tem-se que o Fonte Nova doa essa comida aos atores sociais do "mundo carnal", mas é nesse ponto que dá-se a comunicação. Ao notar a presença constante e imprescindível do pão à mesa, obtive a resposta emblemática: "o pão é Cristo" (Ricardo, Fonte Nova). A mediação estabelecida aproxima-se do "princípio da incorporação", cunhado por Claude Fischler, que percebe a capacidade dos alimentos em ultrapassar a barreira oral para converter-se em substância íntima, que compõe em plenitude o corpo e a mente, o profano e o sagrado, permitindo absorver não somente nutrientes, mas também significados. Nesse sentido, quando "o pão é cristo", o teor simbólico desse alimento revela-se, mostrando que "os alimentos não apenas nutrem, mas também significam" (Fischler, 1995: 22).

Incorporar Cristo pela comida, evangelizar: "ser Cristo" (Bruno, Fonte Nova). Parece-nos que, entre outros impulsos, o caráter evangelizador está presente nas motivações que impelem os membros do Fonte Nova a dar, a realizar a caridade, conforme Juleide, coordenadora do grupo: "a gente também quer evangelizar".

pict0069.jpgOs múltiplos sentidos que envolvem a doação de comida e o próprio ato alimentar concentram-se no esforço de transmitir a "palavra de Deus" – traduzido na intenção evangelizadora que parece fundamentar a caridade.  De qualquer forma, a restituição está focada muito mais na satisfação do grupo religioso em "fazer o bem", no cumprimento de sua "missão terrena", do que qualquer aspecto material, reforçando, desse modo, a fé compartilhada pelos membros do grupo. É através da comida doada que manifestam-se escopos de evangelização e de comunicação – que congregam elementos pessoais, sociais e religiosos -, tanto sagrados quanto profanos. E mais que isso: a comida prepara o terreno para o sucesso da sociabilidade, da aproximação, do diálogo entre igualdades e diferenças.


Referências

CORRÊA, Norton. A cozinha é a base da religião: a culinária ritual no batuque do Rio Grande do Sul. Antropologia e Nutrição: um diálogo possível. In: CANESQUI, Ana Maria; GARCIA, Rosa Wanda Diez (Org.). Rio de Janeiro: Fiocruz, 2005.

DaMATTA. Roberto. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. 6ª ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

FISCHLER, Claude. El (h)omnívoro: el gusto, la cocina, el cuerpo. Barcelona: Anagrama, 1995.

FRANGELLA, Simone. Corpos urbanos errantes: uma etnografia da corporalidade de moradores de rua em São Paulo. Tese de doutorado. Universidade de Campinas. Campinas, 2004.

GODBOUT, Jacques T. Introdução à dádiva. Revista Brasileira de Ciências Sociais. São Paulo, 13(38), 1998.


* Tiago Lemões da Silva  é graduando em História pela Universidade Federal de Pelotas e membro discente do Laboratório de Ensino e Pesquisa em Antropologia e Arqueologia. Este texto é uma análise dos dados preliminares obtidos em pesquisa etnográfica para sua monografia de conclusão de curso.

* Cláudia Turra Magni é doutora em Antropologia Social e professora do Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Pelotas. 

 

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