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A via do vôngole – matéria sobre o Berbigão

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Vôngole em Florianópolis não é vôngole. É berbigão. Tem sido chamado assim há pelo menos 250 anos, desde que os primeiros açorianos aportaram ali e botaram-lhe nome lusitano. Mas, como berbigão é bicho que dá aos montes nos arredores da capital catarinense, e bem perto da praia, fácil de pegar, acabou virando comida à toa, para matar a fome em tempos de míngua. Só era refeição entre os ilhéus quando os ventos do leste impediam que os barcos saíssem para pescar. Em Floripa, ficou sendo comida de pobre.

Enquanto isso, em São Paulo, chegavam também os napolitanos, famintos e saudosos de seus mariscos. Não encontraram a amada vongola, mas descobriram o berbigão. Moluscos diferentes, sabor quase idêntico. Bastou que se mantivesse a concha e se esparramasse o bicho sobre o spaghetti para que o berbigão ganhasse nome estrangeiro. Nas cantinas e trattorias paulistanas, virou vôngole. E ficou chique. Espécies de vôngole existem no mundo inteiro. Há, de fato, uma vongola que chamam de verace no Mediterrâneo (Venerupis decussata) e há o nosso berbigão (Anomalocardia brasiliana), que povoa toda a costa brasileira.

Quem conhece os dois garante que vê pouquíssima diferença. O daqui é particularmente copioso na baía que separa a Ilha de Santa Catarina, onde fica a capital, do continente. É de lá que vem quase todo o vôngole que se come em São Paulo, colhido à mão por dezenas de famílias que fazem do molusco seu único sustento. "Daqui pra lá tem berbigão de fora a fora", diz André Rodrigues de Sá, de pé na popa da canoa. Com o braço estendido e a mão espalmada sobre a baía, ele desenha o lugar exato onde o molusco gosta de se enterrar: águas rasas, perto da costa, onde a areia do mar se mistura com o lodo do mangue. André conhece como ninguém aquilo tudo: há 25 anos, ele e suas irmãs Rosemari e Rosemeri gastam um bocado de horas por dia com os joelhos submersos arrancando berbigões do fundo do mar. Aprenderam com o avô, que já catava moluscos no passado usando colher de pedreiro.

Berbigão de cativeiro, ao menos no Brasil, não existe. Pesquisadores da Universidade do Vale do Itajaí (Univali) já estão desenvolvendo um método de cultivo, mas por enquanto a coisa toda se faz de modo artesanal. A tecnologia se resume a uma ferramenta que eles chamam de "gancho", espécie de gaiola de ferro acoplada a um ancinho e presa a um cabo de madeira. De gancho na mão, os pescadores desenterram, numa puxada só, até 30 quilos de berbigão do chão enlameado da baía. Só vão para casa quando tiverem enchido a canoa com, pelo menos, uns 150 quilos.

Hora certa para a extração, não tem. É quando a maré desce. E maré baixa pode dar antes mesmo do sol raiar. Quando é assim, lá está a família Sá, às 4 da matina, catando moluscos na água gelada sob os ventos igualmente gelados do sul. Quem vive de berbigão não tem dia de descanso. Afinal, esse é o único sustento não só de André e de suas irmãs como de outras 25 famílias que vivem na Reserva Extrativista da Costeira do Pirajubaé, área criada pelo governo federal em 1992 com o objetivo de organizar a extração local do molusco. A reserva, a primeira desse tipo no Brasil, é vizinha do aeroporto de Floripa.

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