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Um olhar sobre o Mercado Ver-o-Peso: comida, cultura e brasilidade

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As reflexões a seguir são realizadas a partir de uma visita ao mercado Ver-o-Peso, na cidade de Belém, estado do Pará, em abril de 2009. Trata-se do olhar de alguém que vive no outro extremo do país e se propõe a compartilhar impressões de uma realidade distinta da sua. Provavelmente essas impressões seriam totalmente distintas se feitas pela visão de quem frequenta o local ou trabalha no mercado.

O mercado Ver-o-Peso foi construído em 1625 e faz parte de um complexo que compreende outras construções históricas, entre elas a Estação das Docas (inaugurada em 2000), resultante da restauração dos armazéns do porto (LUCENA, 2008). A Estação das Docas possui três armazéns, hoje conhecidos como Boulevard, onde a gastronomia tem um papel fundamental, sendo possível entrar em contato com a impactante cultura alimentar paraense.

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Embora o Ver-o-Peso esteja situado no Norte do país, na porta de entrada da Amazônia, existem aspectos que são generalizáveis à maioria das regiões do país. As feiras e mercados são locais que oferecem muito mais do que a possibilidade de comercializar e adquirir produtos. Mais que vender, os feirantes têm ali um espaço intenso de socialização e vivência cotidiana, sendo comum encontrar pessoas que há mais de 30 anos estão no mercado, apregoando seus produtos e divulgando a cultura do estado. Mais que comprar, os visitantes podem sentir sabores, cheiros e modo de vida e trabalho das pessoas do local.

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A inusitada comida paraense é fortemente marcada pela cultura indígena, em que a folha de maniva é utilizada na elaboração da maniçoba, estando também presentes variedades de frutas com nomes e sabores marcantes como bacuri, ingá, murici, ginja (PIMENTA, 2009). As frutas são despolpadas sob as lonas do mercado, acondicionadas em caixas plásticas e vendidas a quilo, a preços bem acessíveis. Peixes salgados de diversas espécies são comercializados nas bancas do Ver-o-Peso. Também é possível fazer refeições no mercado.

Existem bancas de várias formas, algumas são como balcões de padaria, outras, parecem armários de madeira, que são chaveados quando fecha o mercado, ficando os produtos acondicionados lá dentro.

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O mercado possui vários setores, num encontra-se o artesanato, com destaque para os artesanatos em cerâmica marajoara. Noutro ponto, reúnem-se as essências e remédios da floresta. Ali se encontra de tudo: pomada de gordura de tartaruga, garrafadas para todos os males, perfumes com poderes singulares, óleos medicinais e uma infinidade de artefatos carregados de significados, saberes e principalmente crenças. Basta informar o problema que em alguma banca haverá um óleo, chá, alimento ou essência capaz de auxiliar.

Na vizinha Estação das Docas, no Boulevard destinado à gastronomia, também é possível apreciar algo dos produtos vendidos nas bancas do Ver-o-Peso, o que torna provável que muitos dos produtos sejam adquiridos no mercado e revendidos nos restaurantes da Estação. Ali também se encontra a típica gastronomia paraense, porém mais decorada, em ambiente climatizado e, logicamente, com preços bem superiores. O forte são os sorvetes de frutos da floresta, hoje reconhecidos como parte integrante da alta gastronomia paraense. O destaque que o Pará concede a seus frutos nativos é particular, constituindo-se em importante fator para a preservação e promoção da cultura alimentar e biodiversidade. Os frutos nativos da região norte fazem parte da cultura alimentar da população e muitos, como o açaí, são consumidos frequentemente.

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No sul, os frutos nativos não são tão populares e menos ainda valorizados, sendo rara a ocorrência de sorvetes de araçá, butiá ou pitanga, por exemplo. No entanto, esses frutos possuem importante potencial no que se refere ao binômio conservação ambiental e obtenção de renda, de modo que poderiam ser bem mais utilizados.

As dimensões continentais do país fazem com que existam diferenças significativas no que se refere ao tratamento que as regiões dão a seus produtos característicos e tradicionais. No Ver-o-Peso, esses produtos expressam os saberes e a cultura de um povo e parecem expressar-se livres da rigidez das legislações que homogeneízam o tratamento de produtos alimentares e ignoram a diversidade de nossa cultura, principalmente a cultura relacionada à comida tradicional. Podemos pensar que se em outras regiões do país queijos, vinhos, rapaduras e demais produtos tradicionais tivessem seus espaços garantidos e legislações que dessem conta de sua complexidade, também poderiam ter seus usos potencializados, podendo expressar-se como importante elemento cultural e de desenvolvimento de seus territórios de origem.

 

REFERÊNCIAS:

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PIMENTA, Eduardo. Belém, capital do mundo (da gastronomia). Viagem e Turismo, São Paulo, p.82-84, 2009.

LUCENA, Marcelo. MINISTÉRIO DA CULTURA. Celebração de Parceria com o Pará . Brasília, 2008.

 


* Jaqueline Sgarbi (sgarbijaqueline@yahoo.com.br) é Engenheira Agrônoma e Mestre em Agroecossistemas.

 

 

 

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