Antiga sabedoria

Na antiga cidade de Tenochtitlan, a atual Cidade do México, existia um sistema complexo de hortas e jardins capaz de fornecer mais do que a metade dos alimentos necessários aos 200.000 habitantes da época. As hortas flutuantes, ou chinampas (ilhas artificiais construídas nos lagos), eram irrigadas com a água a sua volta, e os terrenos enriquecidos pelo lodo denso e fértil, dando assim lugar a cultivos altamente nutritivos. Este tipo de técnica oferecia uma solução às comunidades com poucas terras à disposição, protegendo-as das carestias que sucediam às enchentes. Resíduos urbanos também eram utilizados como fertilizantes nas hortas, criando uma adubação para os cultivos e, ao mesmo tempo, depurando as águas da cidade. O sistema oferecia soluções aos problemas que caracterizam a agricultura dos dias de hoje, como a questão dos resíduos, do espaço e da defesa dos cultivos. Os Astecas o conceberam há oito séculos atrás. 

 

Os espanhóis, pouco depois de sua chegada, destruíram este sistema tão complexo, substituindo-o pela monocultura. Algumas chinampas existem ainda hoje, mas são muito raras e já não são mais flutuantes. A comunidade do Terra Madre dos "Agricultores das Chinampas de Xochimilco" é um grupo com uma forte ligação com as tradições rurais, que utiliza uma versão moderna deste antigo método agrícola. 

Os conhecimentos transmitidos pelas comunidades indígenas foi se desenvolvendo ao longo dos milênios com experimentos e tentativas, encontrando soluções e sistemas adaptados a ambientes e circunstâncias específicas. Algumas culturas indígenas têm métodos de cultivo, criação, conservação e preparação de alimentos que rivalizam com a ciência atual, sendo muitas vezes até mais eficazes. 

Nos séculos XVIII e XIX, quando o milho foi introduzido como alimento base na Europa e nas Américas, as populações foram atingidas por uma epidemia de pelagra, uma doença que provoca diarreia, demência, dermatite, podendo até ser fatal. Embora no início ligassem a causa da epidemia à introdução do novo cultivo, permanecia ainda o mistério do porquê a doença não era presente nas populações indígenas americanas, cuja dieta tinha como alimento principal o milho. No começo do século XX, quando descobriram que a verdadeira causa da patologia era a falta de niacina, descobriu-se também que os nativos americanos tinham aprendido a mergulhar o milho numa solução alcalina (obtida a partir de cinzas e cal) que liberava a niacina que, sem este procedimento, não seria assimilada. 

Para além dessas invenções, a riqueza do saber indígena reside na capacidade de manter um estilo de vida responsável, que respeita a natureza, pensando no bem das gerações presentes e futuras. 
As florestas do Meghalaya, no norte da Índia, representam um fantástico exemplo desta visão prática e de longo prazo. Assim que começam os monções de verão, os riachos se tornam rios impetuosos, impossíveis de atravessar. Para solucionar o problema, o povo Khasi desenvolveu um método que consiste em plantar árvores de ficus ao longo das margens, treinando as raízes para que cresçam através do rio, criando uma espécie de "ponte viva". Para conseguir este resultado, é necessário o trabalho de várias gerações, pois não pode ser realizado ao longo de uma única vida. 

Saber como enfrentar os desafios do meio ambiente, trabalhando em harmonia com a natureza para ultrapassar problemas imponentes é fundamental para criar um sistema capaz de oferecer segurança alimentar diante dos desafios do nosso tempo, como o aumento da população e as mudanças climáticas. Apesar disso, hoje em dia esses conhecimentos são muitas vezes ignorados. 

O primeiro evento Indigenous Terra Madre, organizado na semana passada, celebrou as culturas nativas e seus saberes, chamando a atenção para as dificuldades que devem enfrentar. 
O Slow Food Sapmi, que organizou o evento em Jokkmokk, na Suécia, recebeu comunidades indígenas do mundo inteiro, junto com 200 observadores, políticos, jornalistas e responsáveis do setor, para compartilhar ideias, promovendo tradições e uso responsável dos recursos naturais como contribuições fundamentais para desenvolver sistemas alimentares justos, saudáveis e bons. 

A grande atualidade do evento testemunha a necessidade de reconhecer que o conhecimento científico representa apenas uma parte da solução dos problemas. 
Para podermos enfrentar as dificuldades presentes e futuras, precisamos nos inspirar nas comunidades cuja sobrevivência já é prova do fato que somente respeitando a natureza e transmitindo os valores dos nossos antepassados podemos aspirar a um futuro sustentável. 

Para maiores informações sobre o evento Indigenous Terra Madre: www.terramadre.org

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