O café da manhã

Texto de Neide Rigo

Às vezes me pergunto como a indústria alimentícia conseguiu convencer toda uma geração de mães e filhos de que comer sucrilhos pela manhã é mais saudável que um copo de leite e um pão com manteiga. Ou uma tapioca, um pedaço de mandioca cozida, uma banana-da-terra assada, um pedaço de bolo de fubá.  E que dá nome a isto de "cereais matinais".  Nos filmes americanos do século passado já me causava espanto aquela imagem recorrente da mãe atarefada com os filhos escolares abrindo o armário, pegando uma caixa e despejando numa bacia aquela coisa seca e barulhenta como um tanto de ração. Um tanto de leite gelado direto da caixa e estava ali a primeira refeição do dia.  Daquilo para uma coisa chamada ração humana seria um passo. Não deu outra – hoje temos a ração com este nome.

 

Mas, voltando aos sucrilhos que nada mais são que disfarces de ração, basta dar uma olhada no rótulo para constatar algumas coisas: é formado basicamente de milho e açúcar (cada porção de 30 g tem 12 g de açúcar e 18 g de milho), tem zero de fibras em cada porção, tem tão poucos nutrientes que vitaminas e minerais precisam ser adicionados (é como comprar a comida com atestado de pobreza – você leva aquele produto sem nada e junto vai um tanto de comprimidos de suplementos que servem para dar uma pseudo qualidade à coisa). E o tamanho da porção? Cabe numa mão. Será que alguém come só aquilo?  Bem, se comer mais, azar, pois vai comer o dobro de açúcar, de calorias, de suplementos. Se naquela porção você consegue satisfazer cerca de 25% das suas necessidades em vitaminas, das duas uma: ou você vai se entupir de vitaminas e enfrentar seus efeitos cumulativos tóxicos,  já que no mercado hoje há mais produtos vitaminados do que você possa imaginar, ou você está pagando por um suplemento que não quis comprar mas teve que engolir e que vai todo para o ralo. Como nosso organismo foi moldado ao longo da evolução para assimilar e processar nutrientes complexados nos alimentos, as duas coisas deve acontecer dependendo do aditivo.

Uma porção é isto

Do conhecido, seria mais ou menos isto

Mas nós sabemos que o marketing da indústria alimentícia tem mais poder e dinheiro que aquele gasto pelo Estado com  educação nutricional.  E não é só nesta área. Não fosse a propaganda, patrocinadores não teriam convencido tanta gente do bem (e grande parte da mídia, gente importante e formadora de opinião)  a achar bonito e estimulante ver alguém socando o outro encharcado de sangue ao vivo e nas telas da TV, assim como os bestiais espetáculos de maus tratos de animais nos rodeios. Tudo isto aplaudido em verdadeiras arenas medievais. Com bom marketing tudo se consegue. Mas eu só ia falar do café da manhã…

Então, voltando ao Sucrilho, o que tenho aqui em mãos (comprei para um trabalho que vou apresentar) é de chocolate e ainda assim precisa de sal, aromas artificiais de caramelo e baunilha, corante vermelho allura e azul brilhante etc. E é doce, tão doce…

Outro dia uma amiga me contou que o pai procurou ajuda profissional para emagrecer e desistiu. A dieta receitada era simplesmente impraticável – não só por este modelo de consumo, mas também pelo falta de apelo sensorial. Pelo café da manhã e lanche,  você conclui o resto do dia: 250 ml de leite desnatado Molico Cálcio em pó ou 300 ml de leite de soja light Suprasoy/  2 fatias de pão integral light (torradas) ou 3 torradas Bauduco integral light ou 4 torradas Magic Toast Marilan light ou integral/  Queijo cottage/ cobertura de requeijão ou cream cheese light ou Polenguinho com cálcio e fibras light.  No lanche da tarde: 2 fatias de pão integral light + queijo minas/ 1 fruta + iogurte Activia Zero, 1 fruta picada + 1 colher de cereal/ Vitamina – 1 iogurte Activia zero com probióticos/ 100 ml de leite desnatado. Apeteceu?

Por que será que é tão difícil seguirmos pelo caminho do bom senso, do gostoso, confortável e moderado?  O meu café da manhã é sempre muito frugal: café coado com pouco açúcar (quase sempre o único açúcar que consumo no dia), kefir feito com leite integral batido com alguma fruta, 2 fatias de pão feito por mim (com manteiga ou pasta de amendoim ou geleia – tudo em pequena quantidade) e, quando tem – quase nunca, um pedaço de queijo. No dia-a-dia é isto. De fim de semana pode ter, mas nem sempre tem,  um suco, umas bananas cozidas, umas frutas picadas, panquecas, mingau, cuscuz. Nada de diet, light, zero. E aquelas taxas todas, estão, sim, todas dentro do limite, obrigada. O caminho é a moderação. Mas e o seu café da manhã, como é? Clique e conte.


Texto de Neide Rigo, nutricionista e autora do blog Come-se

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