Francisco Melo Medeiros

Francisco e as abelhas Jandaíra – Terra Madre Jovem

Francisco Melo Medeiros

Nascido no interior do Rio Grande do Norte, de família humilde, filho caçula, deste cedo assumi o trabalho na agricultura, ajudando meus pais e também trabalhando para fazendeiros da região. Meu primeiro trabalho “oficial” aos 10 anos foi de “espantalho”: fui contratado para espantar os pássaros nas plantações de um vizinho. Os adultos que trabalhavam nesta fazenda admiravam a minha bicicleta, construída por mim com restos de sucata.  A tarde ia para a escola publica local. Construí com os amigos uma casinha de taipa, onde cantávamos e tocávamos os instrumentos de lata confeccionados por nós ali mesmo.

Aos fins de semana, tinha futebol, passeio de jumento pela caatinga, e colhíamos frutas até fartar. Enquanto esperávamos as chuvas, catávamos ossos de bovinos que eram transformados, no nosso imaginário, em bois, vacas e bezerros, divididos em piquetes e currais nas nossas fazendas de palitos e barbantes, distração garantida e, talvez, uma fuga dos dias difíceis dos ciclos secos e das conversas desanimadoras dos adultos.

Quando chovia, que alegria! Era a época mais esperada para tomar banho na chuva, rolar na lama e encher os carrinhos de lata com as primeiras ramas verdinhas, simbolizando a fartura e a chegada do alimento para as criações. Meu pai buscava logo as sementes guardadas com cuidado e fazia teste de germinação. A agitação era maior quando ia plantar e colher com toda família: milho, feijão, jerimum, melancia e gergelim. Nestes períodos de fartura, sempre tinha à noite uma roda de conversa animada e eu, sempre curioso, me juntava aos mais velhos ouvindo história das abelhinhas que “faziam barulho como se rezassem”. Descobri logo que eram as abelhas sem ferrão, habitantes dos troncos ocos das Umburanas, onde faziam barulho, produzindo um mel delicioso que minha mãe receitava como fortificante juntamente com a farinha de milho. Ao fim da colheita, ajudava meu pai a guardar sementes para o próximo inverno: as melhores espigas de milho, os melhores cachos de gergelim, as sementes das melancias mais doces… No tambor de ferro era guardado o feijão macassar que iria nos alimentar por um bom tempo.

Cresci com as decepções e frustrações que fazem parte do dia a dia do sertanejo, mas que ajudam a amadurecer, a fortalecer a crença num mundo melhor.  Quando algum amigo me dizia que a família estava partindo para a capital, tentava convencê-los que “as coisas iriam melhorar”, não sabia como, mas sentia uma força interior e um apego ao local e à vida comunitária, que me fortalecia a ser otimista e encorajador para resistir. Ficava triste com a partida dos amigos, e isso me dava, então, mais certeza de que iria ficar ali, trabalhando a terra e o povo daquele lugar.

Num desses dias de muita tristeza, troquei duas galinhas pela minha primeira caixa de abelha jandaíra que foi pendurada num umbu e me deu no fim do ano, meio litro de mel.  Com nova seca chegando, as abelhinhas foram embora… Inconformado pela perda sai em busca dos meliponicultores mais velhos, com quem fui aprendendo o manejo rudimentar e a paixão pela atividade. Ao concluir o ensino médio, retomei a criação de abelhas nativas, percebendo o potencial de atividade produtiva, que estava desaparecendo no Município que leva o nome da própria abelha: JANDAIRA.

Iniciei o curso de pedagogia em 2006, sem, entretanto, abandonar as plantações e as abelhas. Nesse ínterim, tomei conhecimento mais profundo do associativismo e do movimento Slow Food (através de uma chef de cozinha moradora do nosso povoado, que trouxe as ideias de agroecologia). Em outubro de 2008 fui ao Terra Madre – Turim.  Voltei com a certeza de que os jovens do Cabeço podiam transformar seus destinos e de nossa comunidade. Que as nossas conversas ao logo de dois anos poderiam ser fortalecidas pelos princípios do “bom”, “limpo” e “justo” e que a Associação de Jovens Agroecologistas Amigos do Cabeço (JOCA) era uma forma de expressar o desejo e a persistência de acreditar na “convivência com a semiaridez”.

Os projetos da Rede Terra Madre pra meliponicultura se intensificaram em 2010 como também as ações locais. Integrar a Rede Terra Madre, e ser delegado, é entrar num universo mágico, contagiante e real de vivências e experiências, de tal modo que os atos cotidianos resultam mais velozes que as palavras. A força que sinto do Movimento Slow Food pode ser expressa nas palavras de Fernando Pessoa: “da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver o Universo… Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer. Porque eu sou do tamanho do que vejo, e não do tamanho da minha altura…” deste meliponicultor, agricultor e ativista Slow, Francisco Melo Medeiros.

>> Saiba mais sobre o Terra Madre Jovem e apoie a participação de agricultores como o Francisco: www.wefeedtheplanet.com

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