avô na loja

Cozinha, afeto e política: O Tempero da Vida

Vovô frequentemente dizia que a palavra grega para “sonho” continha dentro dela a palavra “arroto”. No início, não tomei conhecimento do que havia por trás dela. Anos depois, percebi que ele se referia à comida e às histórias. Ambas requeriam um ritual essencial para se tornarem mais saborosas.

Assim começa o filme O Tempero da Vida (2003), do cineasta turco Tassos Boulmetis. O protagonista, Fanis Iakovidis (Georges Corraface), astrofísico de profissão e gastrônomo de alma, fora iniciado na arte da culinária pelo avô Vassilis (Tassos Bandis), comerciante de especiarias, tão amante do significado das palavras quanto da magia dos temperos. Na intersecção entre astronomia e gastronomia, ensinou que a segunda contém a primeira.

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 Vassilis era um filósofo no sentido grego do termo: um amante da sabedoria e, também, um criativo pedagogo. Ensinava lições de astronomia, geografia, linguística e história por meio de uma didática sensorial criada por texturas, aromas e sabores variados de temperos. Desse modo, apresentou ao neto os meandros emocionais da psiquê humana, conforme a tradição da família. Esses ensinamentos deram ao jovem habilidades e ferramentas que seriam ativadas na resolução de situações da vida adulta.

A culinária também aparece na relação entre Fanis e Saime, a menina por quem se apaixonara. A deportação de sua família – grega de Istambul – no marco do conflito entre Turquia e Grécia pelo controle de Chipre, separa Fanis de seu avô e de Saime, gerando a esperança recorrentemente frustada do reencontro.

A comida permeia de formas variadas todo o filme, da abertura à cena final, evidenciando sua simultânea condição material e simbólica e seu “poder em torno de ideias e práticas”, que “permite reconstruir a memória, o que possibilita redefinir identidades” (Menasche, Alvarez e Collaço, 2012, p. 8, 17). Se é verdade que “o comportamento relativo à comida revela repetidamente a cultura” e que “nenhum outro comportamento não automático se liga de modo tão íntimo à nossa sobrevivência” (Mintz, 2001, p. 31), é compreensível a escolha do diretor pela centralidade dada aos eventos culinários.

Vários filmes utilizam a alimentação como fio narrativo, como, dentre outros, A festa de Babette (1987), Tampopo: os brutos também comem spaghetti (1985), Como Água para Chocolate (1992) e Ratatouille (2007). Por meio de eventos culinários, vivenciamos percepções e costumes cotidianos de diferentes grupos sociais. Cinema, alimentação, gestos, cenografia e planos combinados compõem um possível campo etnográfico para além do dito pelas palavras.

Somando-se à ampla lista de filmes que tomam os alimentos e a alimentação como centrais, O Tempero da vida (2003), conforme tradução do título do filme em português, aproxima-se mais do turco Bir Tutam Baharat e do inglês A Touch of Spice (algo como “um toque de tempero” ou “um algo a mais”) do que do título original grego, Πολίτικη Κουζίνα, que pode ser traduzido como politiki Kouzina. O título original transita entre a cozinha da cidade (polis) e a política, num contexto histórico de conflito que afeta o convívio entre muçulmanos e cristão ortodoxos na Turquia. Ao longo da trama, palavras e temperos revelam diferentes combinações entre significados e ingredientes, marcando momentos decisivos nas histórias dos personagens, os quais vinculam sentimentos às características das especiarias.

Assim, todo o universo do filme está contido na alquimia da cozinha e é por meio dela que, ao longo do filme, são contadas as histórias do mundo e da família de Fanis. Um possível reencontro entre Fanis, vivendo na Grécia, e o avô, que permanecera em Istambul, depois de mais de 30 anos, desencadeia uma narrativa retrospectiva.

O filme estrutura-se em três partes, que revelam a sequência das refeições naquela região: entrada/antepasto; prato principal; sobremesa. As cenas que remetem à sua infância, em 1959, e aos tempos que antecederam o exílio de sua família, são narradas da seguinte forma:

Para falar da nossa cozinha é preciso começar com os temperos. Aprendi os primeiros segredos dos temperos na loja do vovô. (…) Certo dia estava eu na loja do vovô quando entrou uma cliente pedindo peixe seco, folhas de parreira e cominho para preparar almôndegas. Ele indicou canela ao invés de cominho para temperá-las. Ele explica: às vezes, devemos usar um tempero errado para explicar um ponto de vista. Adicionar algo diferente. Cominho é um tempero forte. Deixa as pessoas introspectivas. A canela faz as pessoas olharem nos olhos umas das outras. (…) Não é de se estranhar que os temperos – grandes causadores de conflitos e descobrimentos no passado da humanidade – estavam por trás de uma das maiores guerras da história, uma das quais eu causei em minha própria casa. (texto do início da segunda parte do filme)

Na passagem, às escondidas, Fanis, ainda menino, colocara canela nas almôndegas que sua mãe havia preparado, causando a fúria de seu pai, desencadeando uma discussão. Ele não gostava desse tempero na carne, alegando que almôndegas não combinam com canela, que só deveria ser usada em caso de a carne não ser fresca, dizendo que era o que se fazia quando não tinham geladeira e canela era usada como conservante.

Condenado ao exílio com a família, Fanis vê-se longe do avô. No desterro, cozinhar era a forma de Fanis aproximar-se de sua história, amenizando a dor que tantos exilados são obrigados a vivenciar.

Tias cozinhando Tempero da Vida

Quantas nostalgias sentirão os exilados aos domingos? No caso da família de Fanis, era aos domingos que as tias realizavam competições de pratos. O alvoroço em torno da cozinha lembra Canesqui (1998, p. 218 e 219), quando afirma que

Em cada caso cozinhar é o suporte de uma prática elementar, humilde, obstinada, repetida no tempo e no espaço, com raízes na urdidura das relações com os outros e consigo mesmo, marcada pelo “romance familiar” e pela história de cada uma, solidária das lembranças de infância como ritmos e estações. Trabalho de mulheres que as faz proliferar como “árvores de gestas” (Rilke), como deusas Chiva de cem braços, hábeis, econômicas: o vaivém sacudido e rápido de bater as claras em neve, as mãos que fazem lentamente, em movimento simétrico, como uma espécie de ternura contida, a massa do brioche.

Contudo, apesar de afeito às urdiduras familiares tecidas em sua grande família, Fanis ousou desobedecer a regras tácitas, pois cozinhar não era tarefa para meninos, mesmo que o fizesse de maneira surpreendentemente saborosa, tendo a ciência e a arte das composições dos ingredientes aliadas aos segredos dos temperos. Tal fato espanta, gera suspeitas e convoca reprovações dos pais, da professora e até mesmo do padre da comunidade, que vem excomungar o demônio do corpo e da alma do menino… mas não sem antes deliciar-se com os pratos que o mesmo preparara.

O moralismo para com Fanis ainda na infância revela o quanto a cozinha é perpassada por elementos políticos. No caso do filme, os dois pontos-chave de atrito são o conflito histórico turco-grego e a heteronormatividade associada às práticas culinárias, tornando a cozinha palco da macro e da micropolítica.

Fanis criança cozinhando

A comida e o comer constituem-se em uma “esfera onde se permite alguma escolha” (Mintz, 2001, p. 42) e, no caso do filme, a escolha de Fanis foi estabelecer uma relação com a culinária que confrontava a conformação do masculino e do feminino, ilustrada por preferir brincar de cozinhar com as meninas na escola a jogar com os meninos e, ainda, escolher adentrar a cozinha e acessar a um sistema que não lhe era permitido.

Cozinhar pode conferir à vida muito mais do que sabor, ao transformar o fato cotidiano na alegria possível dos instantes. É o que todos sentimos atualmente, confinados em nossas casas, isolados uns dos outros por conta de uma pandemia global. Afinal, “de tudo o que os seres humanos têm em comum, o mais comum é que precisam comer e beber” (SIMMEL, 2004). Se cozinhar é uma forma de amar aos outros, o que confere tempero à vida é amor. E isso requer equilíbrio. Mesmo que o reencontro com a antiga paixão não seja necessariamente o retrato de um final feliz de muitos romances de cinema, ter tangenciado a possibilidade da paixão conferiu à vida de Fanis o sabor que ele (talvez) nem soubesse que faltava. Indo ao encontro de sabores de seu passado, Fanis retempera a própria existência presente.


Referências

CANESQUI, Ana Maria. Antropologia e alimentação. Revista Saúde Pública, São Paulo, v. 22, p. 207-216, 1998.

SIMMEL, Georg. Sociologia da refeição. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 33, p.159-166, 2004.

MENASCHE, Renata; ALVAREZ, Marcelo; COLLAÇO, Janine. Alimentação e cultura em suas múltiplas dimensões. In: MENASCHE, R.; ALVAREZ, M.; COLLAÇO, J. (Org.). Dimensões socioculturais da alimentação: diálogos latino-americanos. Porto Alegre, Editora da UFRGS, 2012.

MINTZ, Sidney W. Comida e antropologia: uma breve revisão. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v. 16, n. 47, p. 31-41, 2001.

UNKNOWN (Org.). Politiki Kouzina -: touch of spice – o tempero da vida 2023. Touch of Spice – O Tempero da Vida 2023. 2016. Disponível em: https://collectorsmovies.blogspot.com/2016/06/politiki-kouzina-touch-of-spice-o.html. Acesso em: 16 mar. 2020.


* Andréia Meinerz é Professora do Instituto Federal do Rio Grande do Sul – Campus Restinga, Doutoranda em Desenvolvimento Rural pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PGDR/UFRGS)

* Caio Galvão de França é Analista Técnico de Políticas Sociais, Doutorando em Desenvolvimento Rural pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PGDR/UFRGS)

** Autor e autora agradecem a Amanda Lauschner pela atenta revisão textual.

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