Dá-lhe pinhão!

Projeto desvenda saberes e fazeres do pinhão, ressaltando aspectos como sua relevância para a economia e a cultura alimentar dos moradores da Serra Catarinense

Pinhão que é coletado, que é debulhado, que é cozido, que vira paçoca e mais uma série de pratos incríveis. Assim como uma infinidade de receitas, a semente da araucária – árvore que compõe as paisagens da Serra Catarinense – também reúne uma porção de histórias em torno dos atores envolvidos em sua cadeia produtiva. É para onde o projeto Saberes e Fazeres do Pinhão, lançado no dia 12 de abril, busca apontar os olhos, chamando a atenção para uma das mais importantes atividades econômicas da região. “É olhar para esse mundo do extrativismo [do pinhão] com essa visão de que faz parte da tradição cultural, e que é importante do ponto de vista da economia, para o desenvolvimento da agricultura familiar e para a conservação dinâmica da biodiversidade local”, comenta Natal João Magnanti, coordenador da Associação Vianei e integrante da Fortaleza Slow Food do Pinhão da Serra Catarinense. Estima-se que 12 mil famílias estejam envolvidas na coleta do pinhão – que costuma ir de abril a junho –, sendo que 30% têm a atividade como principal fonte de renda.

Pinha recheada de sementes, os pinhões (Foto: Lucimar de Oliveira)

A família de Lucimar de Oliveira é uma delas e, além de produzir alimentos orgânicos no Sítio Recanto do Velho Pai, em Urubici/SC, depende da coleta do pinhão. Para a agricultora familiar e catadora de pinhão, os principais benefícios trazidos por projetos como esse são a divulgação, somada à educação ambiental e alimentar, mostrando as possibilidades de preparos com o ingrediente. “O pinhão não serve só para comer cozido”, ela conta relembrando um evento realizado há alguns anos pela Associação Agroecológica Renascer, da qual também faz parte. “Fizemos todos os pratos preparados com pinhão para 1000 pessoas: pão, pizza, pastel, enrolado. É só substituir! Por exemplo… você vai fazer uma lasanha e nada impede que coloque, no molho, o pinhão. Para quem não come carne, tempera com cebola e frita”, sugere Lucimar, que também integra a Fortaleza SF do Pinhão e a Rede Ecovida

Os restaurantes da região – conhecida por seu potencial de turismo rural – atraem visitantes interessados em conhecer a culinária tradicional serrana. No Restaurante Cansian Zamban, em Lages/SC, a semente da araucária é utilizada em pratos como o entrevero e a famosa paçoca de pinhão. O sócio Zenor José Zamban Júnior vê no projeto a oportunidade de valorizar ainda mais esse produto típico, “Ele organiza as nossas experiências, em todos os setores da cadeia produtiva. Faz com que a gente tome conhecimento da importância [do pinhão], e que as pessoas passem a valorizar ainda mais a nossa cultura e a nossa culinária”.

Para além da geração de renda, o pinhão tem papel fundamental na subsistência, marcando presença diária nas mesas dos moradores da Serra Catarinense. “Uma pessoa come em torno de 20 kg de pinhão por safra. Ele está do lado do arroz e do feijão na média de consumo, na região. Para a segurança e soberania alimentar é muito importante. As pessoas comem todo dia e guardam para comer na entressafra”, frisa Natal, que levantou os dados em sua pesquisa de doutorado, junto aos agricultores familiares do Núcleo Planalto Serrano da Rede Ecovida.

Entrega de pinhão na Cooperativa Ecoserra para comercialização (Foto: Arquivo Centro Vianei)

Come-se pinhão do café, passando pela lida no campo, até a última refeição do dia. “Consumo quase todo dia quando chega na safra: cozido, assado, com café, que fica muito bom. Ali pras 15h, 16h, no mato, dá fome. Aí você faz uma ‘sapecada’* e come. Quase todo dia tem pinhão cozido, na hora do almoço, da janta. A paçoca que a gente quase não faz, porque é muito forte, pesada. Se você faz de noite e come bastante, corre o risco de passar mal. Ao meio-dia, quase não come, porque ela é quente e aí já vai meio desanimado pro mato. Aí no fim de semana faz uma paçoca, um entrevero”, descreve Jaison de Liz Rosa sobre sua rotina em Painel/SC – segundo município em produção de pinhão no Brasil, de acordo com o IBGE – onde é agricultor familiar e extrativista de pinhão, além de integrar o Grupo Coração da Serra e a Rede Ecovida.

Ateando fogo nas grimpas para a sapecada na Associação das Famílias Agricultoras de Otacílio Costa (Foto: Arquivo Centro Vianei)

Outra investida significativa que conecta o pinhão à manutenção da tradição alimentar local está no fornecimento para a alimentação escolar, porém, com a pandemia e a paralisação temporária das aulas, o escoamento pelo PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar) ficou comprometido, como conta Jaison, assim como a venda direta. O que tem segurado as pontas, no caso da família de Lucimar, é a comercialização do produto através das cestas orgânicas. 

A cultura alimentar é fio condutor dos saberes e fazeres do pinhão, e é a partir do entendimento da importância desse alimento para o dia a dia das comunidades locais que os principais aspectos de sua cadeia produtiva se desenvolvem, sendo eles a conservação pelo uso da espécie – estima-se que a Mata de Araucária ocupe de 1% a 4% da área original –, a geração de renda para a população local e, é claro, a soberania alimentar de todas e todos.

Mata de Araucária em São Joaquim (Foto: Arquivo Centro Vianei)

O projeto Saberes e Fazeres do Pinhão foi viabilizado pelo Edital “Chico de Assis” de Premiação de Projetos Artísticos e Culturais do Município de Lages, subsidiado com recursos provenientes do Fundo Nacional de Cultura, conforme Lei Federal n.º 14.017/2020 – Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc, geridos pela Fundação Cultural de Lages. Para acompanhar o lançamento dos mini documentários, basta seguir a página do Centro Vianei nas redes sociais.

*Assar o pinhão numa fogueira feita com as grimpas (galhos secos) da própria árvore.

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