“A gente tem que parar de olhar a cozinha como um espaço binário”

Primeira mulher negra a presidir a Associação Slow Food do Brasil, Maria Conceição Oliveira é exemplo de luta pelo feminismo, pelo coletivo e pelo reconhecimento de uma cozinha afro-brasileira

“Você ficou surpresa?”, Conceição me perguntou ao final da conversa através das câmeras, referindo-se à sua eleição para presidenta. Maria Conceição Oliveira é pesquisadora, gastróloga, especialista em Gastronomia, História e Cultura e a primeira mulher negra a ocupar a presidência da Associação Slow Food do Brasil (ASFB), desde abril deste ano. O trabalho com cultura e o papel no ativismo vêm de longa data, mas o contato mais íntimo com a comida é recente (coisa de quinze anos) e surgiu da necessidade de cozinhar para a mãe então adoentada. “Mas que cozinha?”, ela se perguntou. “Nós somos de uma cultura de tradição oral. Não temos essa coisa de caderno de receitas. Está tudo na memória das avós, das mães”. Intrigada e inspirada pelo amigo e poeta Hamilton Faria, resolveu entrevistar não só a matriarca, como também outras familiares e amigas, reunindo as receitas-histórias no livro As Senhoras das Colheres de Pau, ainda não publicado. “Essa pesquisa veio me dar uma orientação de como e o quê as mulheres negras cozinhavam”, diz, sobre a paixão que criou por esse material, “Através do caderno de receitas, eu sei o que está acontecendo com aquela cozinheira naquela época“.

A paixão pelos cadernos e pela pesquisa cresceu – Conceição se aprofundou na cozinha das mulheres negras do final do século XIX à metade do XX para a obra citada – e com ela a vontade de entender mais sobre técnicas, o que a levou a cursar Gastronomia e, mais tarde, uma pós-graduação em História e Cultura na mesma área. Foi assim que tomou gosto pela escrita, pesquisando, entre outros temas, a sacralização e a alimentação, e a história de uma cozinheira trans. “A cozinha é um local que agrega, que compartilha saberes. É um lugar sagrado sob vários aspectos. Eu sou uma mulher negra, de esquerda, que defende os direitos humanos. Eu não posso não me preocupar com outras questões dentro da cozinha. A gente tem que parar de olhar a cozinha como um espaço binário”, alerta.

Para ela, a cozinha negra é indissociável do coletivo e por isso é tão importante levantar outras bandeiras. “Eu me coloco como uma mulher afrolatina, porque meus entendimentos e questões também se inserem nas mulheres latinas, nas feministas e campesinas.” Conceição acredita que seja preciso pensar a cozinha atrelada à questão social e essa deva, inclusive, funcionar como espaço ativo de luta contra o preconceito, “A gente está num momento gravíssimo de insegurança alimentar e fome, e nós temos mulheres e homens negros, na periferia, fazendo um trabalho incrível sobre a cozinha, e falando sobre o combate ao racismo e à fome através dela”.

Maria Conceição é fiel entusiasta de uma cozinha afro-brasileira e não tem receio de gerar polêmica, “Eu acredito que, no Brasil, nós, negros, constituímos uma cozinha afrobrasileira espetacular. Tem elementos africanos, mas tem elementos da criatividade brasileira, que nós criamos aqui. A nossa identidade está nessa cozinha”, ela comenta, sempre lembrando de dar os devidos créditos à contribuição indígena para o estabelecimento dessa culinária. E ela vai além na discussão, “Eu acho que a feijoada é uma construção, aqui no Brasil, de portugueses e africanos. Ela evolui para isso.”

Alguns dias antes da nossa conversa, a série documental High on the hog, baseada no livro da pesquisadora norte-americana Jessica Harris, tinha acabado de fazer sua estreia e foi inevitável repararmos (as duas) nas semelhanças entre as cozinhas desses “atlânticos”, como Conceição se referiu. “Os negros pegavam o que os americanos descartavam [as várias partes do porco] e colocavam no feijão, às vezes junto com arroz”, ela comenta sobre a similaridade com a influência negra na América do Norte. No caso do Brasil, sabe-se que a maioria dos relatos considerados na formação da cultura brasileira são de viajantes. “A gente bem sabe quem é que conta a história”, ela pontua, “Mas, segundo narrativas dentro da oralidade, os negros pegavam o que não era aproveitado [do porco] e colocavam no feijão.” A teoria de que “escravo não cria nada”, dissipada por alguns pesquisadores, para ela, é infundada, “Então as pessoas acham que a sinhazinha ia ficar o dia inteiro na cozinha vigiando a cozinheira? Elas tinham liberdade de criação. O que mais me magoa é as pessoas fazerem essa negativa cultural. A África é um continente muito rico e milenar. A gente tem que respeitar essa cozinha africana, dos descendentes. A gente traz muito conhecimento com a gente”.

Também baiana de Itabuna – porém radicada em São Paulo desde os oito anos –, não esquece de ressaltar a influência da cozinha de santo na culinária brasileira, com a forte presença do dendê, do quiabo, entre outros ingredientes típicos – e mais uma vez várias semelhanças com a contribuição negra na culinária norte-americana retratada no documentário em questão. A cozinha afro-brasileira, segundo ela, é confluência das memórias que os escravos trouxeram com os aprendizados que as cozinheiras negras passaram para as gerações seguintes. 

Com Carlo Petrini e Georges Schnyder

Por falar em memória, Conceição faz questão de ressaltar a inspiração que tem em algumas colegas de movimento (do qual faz parte há mais de uma década), como a cozinheira Eliane Regis – em suas palavras, “uma cozinheira instigante, que com maestria trabalha os ingredientes do Cerrado” –, a chef Ana Tomazoni – para ela, representante máxima das culinaristas, que, através da promoção de cursos, são fundamentais para a formação de cozinheiras e cozinheiros – e a chef Anayde Lima – ex-proprietária do restaurante Julia Gastronomia, pioneiro na utilização de orgânicos em São Paulo. “Eu nunca mais comi comida igual”, ela rememora.

Na diretoria da ASFB – ao lado do agricultor e extrativista de butiá Antônio dos Santos e da pesquisadora e historiadora Gabriella Pieroni –,  pretende contribuir para que certas pautas tenham mais incidência, como questões de gênero. “Eu soube pela Revecca [Tapie, ativista Slow Food na Bahia] que as mulheres negras, nos quilombos, comemoraram muito essa eleição. Elas se sentem representadas. ‘Uma de nós chegou lá!'”. Segundo ela, a presença da primeira mulher negra na direção da Associação dá às pessoas uma sensação de pertencimento e a percepção de que o Slow Food é um movimento que agrega. 

“Pois eu concordo, Conceição. E saiba que eu não fiquei surpresa não. Eu fiquei muito feliz.”

Comments:

Rota rupestre
17 de julho de 2021

Maravilhosa a entrevista. Gostaria do contato dela

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