À imagem e semelhança de quem?

Agricultores e sociedade se revoltam com imagem divulgada pelo governo. “O que me representa é uma enxada, e não um fuzil. Não faço parte de uma milícia rural”

No dia 28 de julho, Dia do Agricultor, a Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência da República, a SecomVc, publicou em suas redes sociais uma imagem sórdida: um (homem fantasiado de) agricultor rural em posse de uma (caricata) espingarda apoiada nos ombros, em meio a uma plantação (que lembrava uma monocultura). Mesmo que o desconhecimento sobre a origem do alimento ainda assombre as cabeças mais urbanizadas, não precisa ser grande entusiasta da atividade agrícola para perceber cada pixel distorcido da imagem publicada. O texto fazia referência à posse de arma de fogo na zona rural, estendida a toda a propriedade por um presidente que não perde a chance de ampliar seu acesso no país. O susto foi tão grande, assim como as investidas contra a abjeta associação, que alguém resolveu baixar a guarda – não o agricultor fake, mas talvez a pessoa encarregada de monitorar as mídias – e minutos depois a foto não estampava feed algum. Mas a história já estava contada, graças aos colegas jornalistas e outros ativistas que se preocuparam em noticiar tão abominável acontecimento. 

Passado o espanto, veio a sensação nada reconfortante de que, do órgão de comunicação ligado ao fugidio líder federal, não se esperaria outra atitude – é claro que só poderia se valer de objetos fálicos e belicosos como símbolo de poder e salvaguarda da nação. Tampouco é novidade que temas como agricultura familiar, agroecologia, biodiversidade, segurança alimentar e nutricional e alimentação escolar nunca tenham sido caros ao político sem partido. Vale lembrar que, já no primeiro dia de casa (da-mãe-Joana), o presidente inacreditavelmente eleito se ocupou em canetar os principais conselhos com participação da sociedade civil, como o Consea (Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional), que tinha entre suas pautas mais importantes o controle da fome no país.

Além dos prejuízos com a extinção de comissões e conselhos, desde 2018, a agricultura familiar e camponesa vem sofrendo perdas incomparáveis, agravadas na não-gestionada pandemia, como conta Antônio Augusto, o Tonino, agricultor agroecológico e integrante da Fortaleza do Butiá do Litoral Catarinense e da diretoria da Associação Slow Food do Brasil (ASFB): “Perdemos vendas, teve a questão do PNAE [Programa Nacional de Alimentação Escolar], que sofreu muita redução, e várias perdas relacionadas a investimentos durante esse desgoverno que aí se instalou.” Tonino se refere a programas como “o quase já falecido PAA” (Programa de Aquisição de Alimentos), como se referiu, que teve abatimentos drásticos nos últimos anos – com queda de 95% nos últimos oito anos –, comprometendo seus principais objetivos: “promover o acesso à alimentação e incentivar a agricultura familiar”, segundo próprio site oficial.

Ele ainda pontuou que, na Semana dos Alimentos Orgânicos realizada em maio, foram destinados três milhões de reais dos cofres federais para os 27 estados – ou seja, cerca de 100 mil para cada um. “Eu faço parte da Comissão da Produção Orgânica de Santa Catarina e a gente fica se perguntando o que fazer com ‘tanto’ dinheiro. O que precisa muito ser feito é voltar a ter investimento em assistência técnica, em pesquisa. Temos uma deficiência de sementes, rotulagem e precificação dos nossos produtos”, comenta, lembrando que tal investimento é fundamental para que o alimento produzido de forma justa e sem veneno chegue a mais pessoas e não venha a se tornar um produto de elite. “A gente precisaria ter mais incentivo na parte de comercialização, nas feiras, e ter mais acessibilidade aos equipamentos do próprio governo, que são os restaurantes populares, as universidades e os institutos federais. De alguma forma, ter acesso a esse público que consome, mas pro qual não está chegando o nosso produto”, ele acrescenta.

O 28 de julho passou e, com ele, mais um registro apagado como tantas verdades que aquele que se acha dono delas insiste em escamotear. O tempo em que a postagem se manteve no ar, entretanto, foi suficiente para causar indignação, revolta e vários “sentimentos não nobres”, como ressaltou Tonino, que faz parte da categoria dos agricultores familiares, esses sim responsáveis por colocar 70% dos alimentos na mesa brasileira. “O que me representa é uma enxada e não um fuzil. É uma afronta tirar os nossos direitos enquanto agricultores e extrativistas, e colocar uma pessoa armada para representar a agricultura. Para mim, a verdadeira imagem que representa a agricultora e o agricultor rural no Brasil é em seu habitat natural, na roça, com os produtos colhidos, numa feira. Bem diferente daquela que eles colocaram. Eu não faço parte de uma milícia rural”, termina. 

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