A Terra é nossa Mãe

“…nós cuidamos dela e ela cuida de nós”

Essa era a frase destacada no painel artístico da XIII Festa do Murici e do Batiputá, suspenso no Ponto de Cultura Recanto dos Encantados, recepcionando as pessoas presentes para os dias de festividade e convidando cada uma delas a comungar dos princípios acolhedores da Terra Indígena Tremembé da Barra do Mundaú.

A Festa do Murici e do Batiputá é patrimônio imaterial do povo Tremembé da Barra do Mundaú, guardião da Área de Preservação Ambiental do Estuário do Rio Mundaú, no Ceará. Um paraíso natural, com praias, dunas e manguezais, considerado sagrado pelas famílias que vivem nas quatro aldeias da T.I., que apesar de demarcada, ainda enfrenta conflitos, principalmente, pela pressão dos empreendimentos imobiliários e turísticos, que avançam com a ocupação irregular do espaço, fragilizando os bens naturais e modificando radicalmente seus modos de vida.

A comunidade, mesmo com os constantes desafios, acentuados pelos recentes retrocessos que fortalecem ainda mais o agronegócio e o modelo desenvolvimentista, segue sendo resistência e mantém viva a tradição de festejar para agradecer e homenagear os seus mais velhos e Encantados, ou seja, seus ancestrais, que são a própria natureza do lugar, provedora de saúde e alimentos.

“Celebramos todos os anos em honra e agradecimento à ancestralidade, os nossos Troncos Velhos e Encantados, pela dádiva da colheita do murici e do batiputá, dois frutos de nossas matas que representam, para nós, o alimento e a cura.”

Mateus Tremembé, liderança indÍgena e articulador local

Por isso, todos os anos, renova seus laços de pertencimento com o território, demonstrando respeito e conexão com a natureza do lugar, visível e invisível. Sempre no mês de janeiro, há mais de uma década, recebe em suas matas, trilhas e córregos, e em muitos outros espaços, literalmente “encantados”, quem sentir de somar e celebrar sua cultura alimentar, imergindo em seus modos de fazer e viver e desfrutando dos seus muitos sabores tradicionais.

“Vivemos da força da terra, que nos dá energia para lutar e vencer nossas batalhas”

Trecho de uma Oração TremembE, entoada durante todos os dias da festa.

Intercâmbio cultural

A última atividade de campo proposta pelo projeto Território e Cultura Alimentar no Ceará teceu caminhos de aproximação entre o povo Tremembé da Barra do Mundaú e a juventude indígena Tabajara do Sertão dos Inhamuns, a fim de fortalecer e dar amplitude a essas vozes resilientes na luta pela valorização da identidade territorial e preservação da sociobiodiversidade, como garantias de qualidade de vida e acesso ao alimento bom, limpo e justo. Acolhida dentro da programação do evento, a ação de intercâmbio cultural proporcionou experiências de integração e convívio comunitário e interação com o espaço físico, com a fauna e a flora do ambiente estuarino, diminuindo as distâncias entre o semiárido e o litoral cearense.

Para vivenciar essa oportunidade, o grupo de jovens e mulheres mobilizados por Eleniza Tabajara, liderança indígena do povo Tabajara do Sertão dos Inhamuns e articuladora local do projeto, com o apoio de Fabrícia Tabajara, diretora da Escola Indígena Carlos Levy, viajou cerca de 400km até Itapipoca. As quatro aldeias que compõem o território, ainda não demarcado pelo governo federal, ficam no município de Quiterianópolis, localizado próximo à divisa com o estado do Piauí, e as famílias guardiãs até hoje sofrem com a presença de posseiros, que cobram pelo uso de sua própria terra.

Através do olhar de quem convive com a realidade de uma das regiões mais áridas do estado, o destaque foram as vivências no mar e no mangue, a exemplo da pesca artesanal noturna dos aratus e caranguejos, e a colheita dos frutos da celebração, o murici e o batiputá, que ao invés de serem cultivados como o feijão, referência da agricultura familiar Tabajara, brotam espontaneamente nas matas de restinga. O pôr do sol na gamboa e o batismo nas águas sagradas também foram vividos com muita emoção.

Em contrapartida a essa imersão na cultura Tremembé, o coletivo representante da juventude Tabajara do Sertão dos Inhamuns teve a chance de partilhar o modo completo, desde a matança do porco, de como preparar o choriço, um doce tradicional, patrimônio de sua cultura alimentar, feito a partir do sangue ainda quente do animal. O resultado foi bastante apreciado até pelas crianças!

Na roda de conversa, que ocorreu debaixo da agradável sombra de uma mangueira, Giselle Miotto, consultora do projeto e participante da Comunidade Slow Food Brasil Educação, estimulou diálogos e reflexões entre os dois povos beneficiários para identificarem o potencial de suas comunidades e oportunidades de fortalecimento econômico em seus territórios. Prezando pela segurança alimentar e nutricional, a educadora destacou a importância do consumo de alimentos produzidos localmente, como uma das estratégias de resistência frente aos processos globalizantes.

Outro momento importante de trocas foi a roda de parceiros que reuniu a equipe do projeto, representantes das duas comunidades, o conselho indígena e as instituições presentes, revelando um horizonte de possibilidades para continuidade e expansão das ações em rede.

Território e Cultura Alimentar no Ceará

O projeto é uma realização da Associação Slow Food do Brasil (ASFB) e do AKSAAM – Adaptando Conhecimento para a Agricultura Sustentável e o Acesso a Mercados, projeto do FIDA – Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola em parceria com a Universidade Federal de Viçosa (UFV), com o apoio dos projetos Paulo Freire (FIDA), São José (Banco Mundial) e a Escola de Gastronomia Social Ivens Dias Branco. As ações realizadas em território Tremembé contam, ainda, com apoio do CETRA.

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