Mangarito, manifesto da cultura e memória alimentar brasileira

O mangarito é um dos 235 produtos da Arca do Gosto do Brasil, e é parte da publicação Arca do Gosto Minas Gerais. O tubérculo nativo do Brasil com alto potencial gastronômico vem retomando espaço no campo por meio da agricultura familiar.

A história do cultivo e consumo do mangarito nas duas últimas décadas é um exemplo do que o programa da Arca do Gosto visa inspirar para todos os alimentos compilados na edição de Minas Gerais. No artigo introdutório, o projeto é definido como “A Arca do Gosto não é uma lista de espécies ameaçadas de extinção, nem um livro de receitas e alimentos tradicionais. É um catálogo da agrobiodiversidade, de alimentos e espécies animais e vegetais que existem porque são frutos da relação essencial do ser humano com a natureza, onde este recebe, seleciona, manipula, aprende a preparar, a processar, a maturar, a consumir e a compartilhar os recursos ao seu redor, dos quais é parte responsável, como um todo.” 1 (p. 23)

Na primeira década dos anos 2000, o Slow Food chegava ao Brasil e, logo, foi formada uma comissão dedicada à pesquisa e catalogação da Arca do Gosto. Ao mesmo tempo, João Lino, um agricultor do interior de São Paulo, apaixonado pelo mangarito, realizava as primeiras colheitas e, a partir de 2001, anuncia a venda de mudas para o plantio no suplemento agrícola do Estado de S. Paulo. O agricultor que cultivava uma memória afetiva com o mangarito desde a infância dedicou parte da sua vida a espalhar o cultivo e a popularizar o alimento. Durante quase uma década manteve um endereço de blog ativo, onde escrevia sobre o alimento e registrava novas descobertas acerca do plantio.

Na apresentação ao leitor, ele conta como se encantou pelo mangarito “Sempre vem a lembrança, de uma boa comida feita pelas mãos calejadas da minha mãe, naquele famoso fogão a lenha (…) Foi muito útil esta vivência na roça, pois me tornei herdeiro de um colossal vínculo com muitas coisas produzidas na terra especialmente com as batatinhas cozidas pela minha mãe, quando tinha uns oito anos de idade, chamadas de “mangarito”.”

Folhas de mangarito, o rizoma comestível fica debaixo da terra. Foto: Neide Rigo, do blog
Come-se.

O tayaó, um de seus nomes populares, quase desapareceu com o crescimento da monocultura a partir da década de 1950. A maior parte dos estudos recentes, inclusive o levantamento realizado para a inclusão na Arca do Gosto, apontam a planta como nativa do bioma da mata atlântica, sendo cultivada e consumida pelos povos originários. No Tratado descriptivo do Brasil em 1587, de Gabriel Soares de Sousa, é descrito como alimento cotidiano com modo de preparo semelhante ao das batatas e do cará. No paladar, o relator destaca as notas acastanhadas, que, aos portugueses, lembravam avelãs e nozes.

Uma geração de brasileiros, que cresceu antes dos anos 1950, tem lembranças afetivas com o mangarito apreciando por ser nutritivo e pelo sabor que lembra o pinhão. Uma rápida pesquisa na internet revela vídeos, postagens em blogs e reportagens cujos comentários ressoam memórias da vida interiorana nos quintais e pessoas ávidas por mudas para plantio.

A internet como ferramenta de comunicação contribuiu para o crescimento do interesse acerca do mangarito nas duas últimas décadas, movimentando trocas entre pesquisadores, cozinheiros e apaixonados, como João Lino. Por volta de 2008, chefs de cozinha, cozinheiros e ativistas introduziram o mangarito na gastronomia local. Alguns preparos comuns são galinha caipira com mangaritos ensopados ou como acompanhamentos: salteados na manteiga e azeite com ervas frescas, como purês ou mousseline.

Desde 2014, a Embrapa pesquisa a planta e seu ciclo produtivo e, em 2019, produziu a primeira cartilha com instruções de plantio. A esperança é que o mangarito possa voltar a povoar feiras e mercados na época da colheita – entre abril e junho, dependendo do microclima regional. Como revela a pesquisa da Arca do Gosto Minas Gerais “Além da importância histórica, cultural, e como elemento da biodiversidade nativa, o mangarito é uma alternativa interessante para o cultivo agroecológico, de grande potencial para agricultura familiar. É uma planta rústica, que pode ser cultivada sem o uso de adubos químicos e agrotóxicos. Mas é também um alimento saboroso e nutritivo, com características únicas e grande potencial gastronômico.” 3 (p. 619)

(1)  e  (3) A Arca do Gosto Minas Gerais, disponível para download no site do Slow Food Brasil.

(2)    Disponível em http://www-mangarito.blogspot.com

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