Big Food: Comida de mentira

Documentário brasileiro premiado internacionalmente escancara o lobby das indústrias de ultraprocessados e visa levar mais informação ao grande público

“Nossa intenção não é só falar do direito a uma alimentação saudável. É o direito de se alimentar, como um todo, em um país onde milhares estão passando fome”, diz Chica Santos, diretora e roteirista do mini-documentário “Big Food – O Poder das Indústrias de Ultraprocessados”. Lançado no último dia 18, o filme é uma iniciativa do projeto Alimentando Políticas, do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), em parceria com o Coletivo Bodoque de Cinema. 

Depois de literatura, como “Uma Verdade Indigesta”, de Marion Nestle (Editora Elefante), e do crescimento de reportagens sobre o tema, nos últimos anos, a produção audiovisual tem o intuito de abordar o conflito de interesses na área da alimentação para uma parcela ainda maior da sociedade. “Nosso papel é o de criar uma comunicação independente e contra hegemônica, para fazer chegar ao máximo de pessoas o que de fato são esses produtos”, diz Chica, que há dez anos trabalha com lutas e causas sociais no Coletivo Bodoque, ao lado do produtor executivo Rafael Mellim e parceiros. 

O conflito de interesses nada mais é do que o confronto entre as esferas públicas e privadas, comprometendo, de forma imprópria, o desempenho da função pública e ocasionando externalidades graves. “Tais indústrias são responsáveis por impactar o meio ambiente com suas produções em escala planetária, devastando florestas, destruindo a vida no campo e impedindo, através de lobby, que políticas públicas para o acesso à alimentação adequada sejam implementadas”, pontua Santos. 

A partir de entrevistas com pesquisadores e ativistas do Brasil e do mundo, o filme traz dados históricos e atuais, sérios e relevantes, sobre a influência que as dez empresas que controlam o mercado mundial de alimentos exercem na sociedade, graças às facilidades encontradas para o atendimento dos próprios interesses única e exclusivamente econômicos, em meio à esfera pública. “Elas têm um poder enorme e dominam os grandes meios de comunicação através de seus gigantescos orçamentos para publicidade. Somos enganadas o tempo todo, com frases de efeito como ‘feito com carinho’, ‘da fazenda’ e outras tantas falácias que encobrem o quão danosos à saúde esses produtos são”, acrescenta a documentarista.

São muitos os estudos que associam o aumento das doenças crônicas ao consumo de ultraprocessados, e Big Food traz dados de investigações que comprovam que as grandes indústrias do ramo financiam pesquisas científicas, abusam da publicidade infantil, fazem investidas desleais na alimentação escolar e dispersam falsas verdades, de modo a comandar a dieta diária e a (má) saúde da população.

Segundo a Dra. Ana Paula Bortoletto, Doutora em Nutrição em Saúde Pública e Consultora Técnica do Programa de Alimentação Saudável e Sustentável do Idec, o Alimentando Políticas visa ampliar o alcance das informações sobre a influência da indústria na formulação de políticas públicas sobre alimentação e nutrição. “É um problema que não fica tão aparente ao se olhar apenas os embates políticos, mas a ideia é que mais atores tomem essa consciência, e que possam adotar medidas no cotidiano para evitar, prevenir e minimizar essas interferências”, ela complementa. 

De acordo com Ana Paula, no contexto atual de aumento da fome e da insegurança alimentar, não só é importante, como urgente a discussão sobre essa temática. “A gente vê a criação de falsas soluções, que muitas vezes são apresentadas com o objetivo de trazer mais lucros para as grandes empresas, ao oferecer mais ultraprocessados na alimentação do brasileiro, desconsiderando a vulnerabilidade das pessoas, a falta de ações e de acesso a alimentos saudáveis, podendo aumentar ainda mais as desigualdades”, comenta Bortoletto.  

Com certeza, Big Food vem para suprir parte dessa urgência. Big Food – O Poder das Indústrias de Ultraprocessados”, que ganhou o prêmio de melhor documentário no Festival Independente de Roma, em 2021 – além receber outras indicações para premiações internacionais – está disponível para agendamento de exibições no site do Alimentando Políticas, do Idec.

Comments:

ORLIANE
7 de dezembro de 2021

Realmente todos nós sabemos que este tipo de alimentos são péssimo para saúde, só que comer saudável no Brasil é muito caro e somente uma camada muito pequena tem condições os alimentos orgânicos chegam sempre com os preços altíssimos nossas frutas, legumes e hortaliças seguem o mesmo caminho independente se são da época ou não, tente comprar 1lt de leite de vaca natural caro o de cabra o dobro sem falar que o gás disparou. Nossa maior população é de classe miserável, pobre e média e são justamente onde há os maiores índices de doenças então: esse discurso e muito legal para os ricos. Um dia terei condições de me alimentar como meus bisavós se alimentaram ou quando a indústria alimentícia ainda não tinha tanto poder.

Glenn
21 de dezembro de 2021

Com certeza a indústria interfere tanto nas políticas públicas que os ultraprocessados se tornam artificialmente mais baratos do que os alimentos da agricultura familiar de base ecológica. O que precisamos é enquanto população entender que o acesso a esse alimento de qualidade é um direito, e assim, lutar para que os subsídios e renúncias fiscais, além dos perdões de dívidas sejam para quem produz alimentos saudáveis e não sejam concedidos ao agronegócio e a indústria de ultraprocessados, que geram riqueza para quem destrói a saúde do povo.

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